Acordou, como de costume, às sete horas da manhã, levou as mãos ao rosto e sentiu algo diferente. “Desde quando tenho tantas rugas?” - perguntou-se. Levantou-se em direção ao banheiro, cambaleando sonolentamente, ainda não havia aberto os olhos. Sentia-se cansado, os ombros pesavam mais do que o normal. Adentrou o banheiro, ligou a torneira, encheu as mãos de água e lavou o rosto. Abriu os olhos e se olhou no espelho, “O que aconteceu comigo?” - foram as primeiras palavras saídas de sua boca. O cabelo, branco, já não era mais visto com abundância, a pele, enrugada, não demonstravam seus 17 anos. Lavou o rosto novamente, como quem não quer acreditar no que está vendo, mas nada mudou. Continuava ali, cheio de rugas, velho. Procurou saber a data, percebeu que tudo estava diferente, atualizado. Encontrou um celular e o encarou, não era parecido com qualquer coisa que já havia visto, ligou e foi atrás da data, ficou boquiaberto.
“29 DE OUTUBRO DE 2042?!” - o grito ecoou por sua casa e dentro de sua cabeça. Seu cérebro pulsava procurando entender tudo aquilo, antes de dormir tinha recém completado 17 anos, e algumas horas depois acorda com 51, “Como pudera o tempo passar tão rápido?” - pensou. Ao menos era seu aniversário, quem sabe não teria a chance de esclarecer aquela história com os amigos. Tomou um banho, com a cabeça ainda latejando, sentou-se no sofá ao lado do telefone, e esperou. “51 anos, sem mulher, sem filhos, o que diabos aconteceu de errado em minha vida?” - questionava-se. Esperou a tarde inteira, nenhuma ligação, nenhuma visita, nenhuma mensagem, nada. Teria ele se tornado um ermitão? Seu cérebro, já cansado, demonstrava sinais de fraqueza, e seu corpo foi tomado por uma sonolência incompreensível, dormiu pensando se aquilo tudo não era um pesadelo. Acordou, suas costas doíam, por ter dormido no sofá, ou quem sabe fosse apenas a idade. Não era um sonho, nem um pesadelo. “Como diabos 34 anos passaram em algumas horas de sono?” - questionou-se, irritado. E seus planos? O que teria acontecido com seus planos? Havia planejado sua vida toda, passo a passo, não conseguia enxergar seu erro. Sua mente lutava contra a verdade, procurando uma resposta para tudo aquilo. Num momento de luz, realizou o que poderia ter sido seu erro. “O planejar.” - afirmou. Não queria aceitar, por que teria sido um erro planejar sua vida? Nada poderia dar errado, pois havia planejado tudo. Sua cabeça, inundada de memórias, pesava. Percebeu que o erro não foi só fazer planos, mas sim automatizar sua vida, não era um robô, era um humano, de carne e osso, e emoções. Realizou que não fora feito para viver uma vida automatizada, esse foi seu erro. Exagerou no planejamento, e foi isso que ganhou: uma vida sem amigos, sem família, sem lembranças, uma vida não vivida. “Se eu pudesse ter tido esta epifania antes, se eu tivesse uma segunda chance…” - pensou. Mas não tinha. Aquela era a vida que ele mesmo preparara. Não podia mais mudar o que passara, resolveu então buscar o que ainda podia fazer, tentar reerguer sua vida, ser feliz. Sabia que nada traria de volta os 34 anos perdidos, olhou na parede um calendário, com metas e planos, rasgou-o. Vida nova, livre.
Porque o tempo não volta, nunca.
2 comments:
E que surpresa descobrir que escreves! Sequer sabia da possibilidade de ser "seguidor" de um blog, e me surpreendi ao perceber que havia um no meu. Henrique Salvaro? Peraí, conheço esse nome... haha!
Virei seguidora também. A propósito, "assunto inútil" é um conceito meio relativo. Gostei daqui :)
irado :D
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