Encontrava-se novamente em uma situação complicada, mas desta vez era algo GRANDE. Um problema que ia muito além dos já vivenciados por ele, como “apagar” traficantezinhos meia-boca, pressionar clientes. Acompanhado de um amigo, esperavam em uma esquina escura, o cheiro podre vindo dos sacos de lixos somava com os esgotos abertos próximos dali, criando um ambiente completamente hostil para qualquer um que ali quisesse entrar, ou seja, um ótimo lugar para praticar atos ilícitos sem a intromissão de civis. Esperavam por uma reunião urgente convocada há pouco, o homem suava frio, a face, pálida de medo, contorcia-se fazendo caretas demonstrando o asco daquele lugar. O amigo, apreensivo, olhava atentamente ao redor, como se esperasse por uma entrega especial, o coração palpitava forte, estava com um mau pressentimento, mas não era supersticioso e resolveu esperar para ver. Após alguns minutos de espera os dois foram cercados por cerca de 10 homens fortemente armados, a neblina misturada com o mal estar causado pelo cheiro contribuíam para dificultar a visão. “Hmmm, é esse o delator?” - perguntou o homem que aparentava ser o chefe. “Sim” - respondeu o homem. O amigo, agora tremendo de medo, infelizmente confirmara o mau pressentimento. O homem juntou-se à roda, deixando somente o ex-parceiro no meio. Este por sua vez experimentava uma sensação horrível única, algo que nunca havia sentido antes, um medo inexplicável que tomava conta de seu corpo, impossibilitando-o de tentar qualquer coisa, o corpo estava literalmente imobilizado, mas o cérebro trabalhava à pleno vapor, tentando entender o que exatamente havia acontecido, e o porque dele ser o “delator”. “Você tem certeza de que foi ele quem delatou o nosso carregamento de armas?” - perguntou o chefe. “Sim, acho que tenho.” - respondeu o homem, já demonstrando sinais de incerteza. Um silêncio aterrorizador tomou conta do lugar, os homens processavam as informações com cuidado, um momento até irônico, assassinos frios com receio de matar um homem que talvez fosse “inocente”. “Tenho provas de que foi ele” - o homem falou relutando. As mostrou ao chefe, que ficou convencido o bastante, e ordenou que executassem o acusado. Ainda imóvel e incapaz de produzir um único sinal sonoro, o amigo estava completamente desamparado, sem chão, já que o delator na verdade havia sido o seu ex-parceiro, mas haviam feito um acordo prometendo sigilo, sentiu então um remorso, uma emoção mais aterrorizante ainda, foi traído por alguém que achou que pudesse confiar, lutando contra o próprio corpo, conseguiu pronunciar suas últimas palavras: “Te vejo no inferno, traidor.”. BANG, o corpo, perfurado na cabeça, encontrava-se estirado no chão, os capangas deixaram o lugar e o homem permaneceu, observando provavelmente o maior erro que já cometera em sua vida, seu amigo e parceiro, ali caído no chão, morto, tudo por que havia armado pra cima dele, jogado um jogo sujo demais até para os criminosos, a pouca honra que ainda lhe restava foi arrancada para fora de sua alma. As últimas palavras ecoavam em sua cabeça, viu tudo rodar, o cheiro insuportável do lugar somado com o cheiro de sangue e cérebro no chão formou uma mistura-bomba que o forçava a vomitar. Sentiu-se chicoteado, claramente sua própria consciência rebelava-se diante daquela situação desonrosa, foi tomado por um instinto selvagem e subiu num prédio próximo, nos breves momentos de lucidez que tivera até o topo, percebera o verdadeiro significado da palavra insanidade, sua mente sóbria estava presa por alguma força oculta de seu subconsciente, estava realmente de mãos atadas. Caminhou até a borda do terraço, tinha medo. Seus esforços eram inúteis, sabia que havia algo errado consigo mesmo, que aquele era um fardo que não conseguiria e não queria carregar. Riu nervosamente, e as palavras “Te vejo no inferno, traidor.” ecoaram por sua cabeça uma última vez, tinha consciência agora de que não haveria outra vez. Pulou.